Apresentacao da frase
A frase
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
é um trecho do diálogo entre Édipo o sacerdote, proferida por este último.
A obra é Édipo Rei, de Sófocles, apresentada em forma de teatro provavelmente no ano de 430 a.C, en Atenas.
Traduzido livremente, a frase, em portugues, equivale a
“Mas, ó Édipo, soberano da minha terra, tu por certo nos ves.
No livro “A trilogia tebana – Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona, de Mário da Gama Kury, editora Zahar, o trecho da fala do sacerdote em que o original em grego está inserido é a seguinte:
“Édipo, rei de meu país, ves como estamos aglomerados hoje em volta dos altares fronteiros ao palácio teu”.
O contexto literário da frase
A frase é apresentada ao início da obra. Aqui, diante da praca fronteira ao palácio real em Tebas, a populacao procura seus governantes, em tom de súplica, em busca de alívio diante de uma misteriosa praga que se se abateu na cidade, em que já nada nasce, plantacoes ou pessoas. Entre eles, está o sacerdote de Zeus, que profere a frase em estudo.
Édipo aparece `a multidao perguntando-lher por que suplicam, por que a cidade está cheia de fumaca de incenso e de hinos tristes, aparentemente alheio – ou sem enxergar – as desgracas que se abateram na cidade em em seus habitantes.
Em resposta `as perguntas de Édipo, o sacerdote esclarece que Tebas se encontra totalmente transtornada diante do flagelo da peste, e implora que Edipo, que outrora havia salvado a cidade de uma outra ameaca, volte a salvá-la.
A frase, tal como acontece em outras partes da obra, é um toque de ironia trágica, que evidencia a genialidade do autor, em semear em pequenas referencias o grande mote da história, o fato de Édipo nao perceber a realidade em que se enredou, e, que, por consequencia dos seus atos, acabou por cumprir a profecia nefasta que lhe foi atribuida pelos deuses.
A visao, ou falta dela, seja física ou por falta de percepcao, é o grande arco que permeia a obra, sendo referenciada seja pela inabilidade de Edipo de ver, seja pela falta de visao física, mas ampla percepcao de Tirésias, o sacerdote cego que rivaliza Édipo na história.
Análise sintática da frase
Destrinchando todos os elementos da frase em estudo, identificamos aspectos gramaticais passíveis de serem analisados. Esta secao se ocupa de tais análises.
Conjuncao
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
Em grego, conjuncoes sao classes de palavras indeclináveis que ligam duas oracoes dentro de um mesmo período.
Há uma extensa classificacao das conjuncoes, e esta, especificamente, é uma conjuncao adversativa, significando “mas”.
A palavra ἀλλ᾽, escrita com o apóstrofo, é a contracao de ἀλλά, escrita deste modo porque há o encontro vocálico do último alfa de ἀλλά e o ὦ da palavra seguinte, fenomeno chamado elisao.
Muitas vezes, no início de uma fala em uma peça de teatro, o ἀλλά serve para tomar a palavra ou mudar o foco do diálogo. O Sacerdote usa-a para começar a responder a Édipo, funcionando como um “Pois bem…”, “Ora…”, ou “Mas, visto que perguntaste, ou outras expressoes equivalentes.
Vocativo
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
O vocativo é o ato de chamar. É uma espécie de interjeição, um chamado, um aceno, e, mesmo até de modo intuitivo, próprio da oralidade. Usa-se o vocativo apenas nos diálogos e nas interpelações, que são uma forma de diálogo.
O vocativo não é um caso, porque não tem função sintática, ou, em outras palavras, não faz parte do mecanismo da frase. Por isso, tem desinência zero, isto é, é o próprio tema.
Normalmente, o vocativo usa as mesmas desinências do nominativo, quando a manutenção do tema em consoante, com a apócope delas, menos o -w, -r, -n, descaracteriza fonética e semanticamente a palavra.
Além disso, o vocativo autêntico é só o singular. Terminacoes em plural foram criadas por analogia. Por isso também o vocativo é pobre em relações complementares (quase não tem predicativo e o aposto descamba freqüentemente para o nominativo); só o adjunto adnominal (epíteto), por se colar ao nome, fica no vocativo.
Como referido anteriormente, por não ser função, o vocativo não é caso, isto é, não tem desinência própria. É o próprio tema. Mas ele está intimamente ligado ao nominativo, que é o caso da nomeação; ele não existe, ou está implícito, por exemplo nos pronomes pessoais, nos adjetivos possessivos, nos demonstrativos, por razões semânticas.
Essas categorias são identificadoras, com funções próximas das do nominativo.
Nos nomes femininos de tema em -a / -h, ele é igual ao nominativo e é o próprio tema nos masculinos.
Nos nomes de tema em -o, ele é o próprio tema, mas com vocalismo -e nos masculinos e femininos e é igual ao nominativo nos neutros.
Nos nomes neutros de tema em consoante, soante e semivogal, ele é igual ao nominativo, e nos masculinos e femininos ele é ou o próprio tema, ou é igual ao nominativo.
O vocativo normalmente vem precedido por ὦ (o ómega com espírito breve), o que o torna um sinal de que a expressao posterior provavelmente será um vocativo.
Na frase
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
o vocativo é
ὦ κρατύνων Οἰδίπους
Percebe-se aqui a partícula sinalizadora do vocativo, ὦ, e ambas as palavras (κρατύνων e Οἰδίπους) tem a forma do nominativo da terceira declinacao, terminada em ν.
As análises sintáticas dos casos em que as palavras κρατύνων e Οἰδίπους estao serao analisadas nas próximas secoes deste texto.
O verbo
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
O verbo grego possui:
– tempo: presente, passado e futuro.
– modo: indicativo, subjuntivo, imperativo, optativo, infinitivo e particípio.
– voz: ativa, média e passiva.
– aspecto: inacabado (infectum), aoristo (pontual) e acabado (perfectum).
Na frase em estudo, ὁρᾷς é o verbo. Ele está na segunda pessoa do singular, presente do indicativo ativo, que se evidencia pelo ς no final da palavra.
Seu significado em português é ver, perceber, enxergar.
Na sua forma infinitiva, este verbo toma a forma de ὁραω.
No contexto de seu uso na peca, o sacerdote se refere a Edipo pelo pronome tu, pelo que o verbo, então, concorda em número com o sujeito da frase, tu.
O aspecto verbal, ou seja, o tempo interno do verbo é Inacabado (infectum).
Segundo Henrique Muracho, “o infectum é o ato verbal que começou e está em movimento, na sua realização, em pleno processamento. Pode conter a idéia de hábito, iteração, freqüência, desdobramento, amplificação; pode dar a idéia de início do processo verbal e também da continuidade. Pode ser presente ou passado (imperfeito)”.
Ainda segundo o autor, o termo “presente”, não se refere ao tempo absoluto, mas a um tempo relativo a um ponto, a um espaço e a um tempo. O nome presente é um particípio presente e por isso traz a idéia de simultaneidade; o nome “imperfeito” exprime um processo (ainda) não acabado: passado em relação ao presente e presente, simultâneo a um processo (ato verbal) no passado.
Restringindo-se ao tempo presente, que é o tempo da frase em estudo, o infectum pode ter os seguintes significados:
1. Uma ação que se desenvolve no momento em que estamos falando, que começou há pouco mas que continua ou que está começando no momento em que se fala;
2. Uma ação que começou há pouco ou que se inicia, mas que continua ou que se tornou ou se torna um hábito, que se repete, ou uma afirmação que vale para todos os tempos. Acontece sobretudo com verbos em cujo significado não se percebe a separação de início pontual e continuidade da ação.
3. Um ato por vir, que se inicia – iniciará- imediatamente e continuará. Algumas vezes, ao narrarmos um fato passado, para darmos mais ênfase à narrativa, usamos o presente, como para pôr diante dos olhos do ouvinte ou leitor o fato narrado. É o que as gramáticas chamam de presente histórico.
A língua grega tem duas grandes famílias verbais: os verbos terminados em -μι, ditos atemáticos, e os verbos terminados em -ω, ditos temáticos.
Estes últimos se subdividem em verbos nao contratuais, cujo radical termina por uma consoante ou uma vogal ν ou ι, e os verbos contratuais, cujo radical termina por uma vogal α, ε ou ο.
O tema deste verbo termina em α, que se junta com as desinencias vocálicas ι e ν, segundo a lógica dos verbos contratuais.
A sua conjugacao completa fica, portanto:
1ª sing. ὁρῶ — eu vejo
2ª sing. ὁρᾷς — tu vês
3ª sing. ὁρᾷ — ele / ela vê
1ª pl. ὁρῶμεν — nós vemos
2ª pl. ὁρᾶτε — vós vedes
3ª pl. ὁρῶσι(ν) — eles / elas veem
O particípio
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
O particípio é a classe de palavras que participa de duas outras classes: é um verbo e um adjetivo.
O particípio presente é marcado, em portugues, nos adjetivos terminados em -ente ou -ante. Ver, por exemplo, o particípio governante, que significa aquele que governa.
Em portugues, há ainda a forma do particípio passado, em palavras terminadas em -ado, como amado, falado, entre outras.
O particípio futuro, em portugues, é somente usado em casos bastante específicos, como, por exemplo, em linguagem jurídica ou técnica. Um exemplo é a palavra nascituro.
Na língua grega, os particípios sao bastante empregados, por favorecerem a fluidez da frase ao permitir um encadeamento das proposicoes de forma menos dependente de verbos conjugados, tornando, portanto, o texto mais leve. De acordo com Fourgeaud-Laville, os particípios sao a marca registrada do grego antigo.
Assim como os infinitivos, os particípios existem no presente, futuro, aoristo e perfeito. Também existem na voz ativa, média e passiva.
Em grego, o particípio aparece como se fosse uma palavra da terceira declinacao quando ele for masculino e neutro.
Particípios de palavras femininas se declinam como se fossem palavras de primeira declinacao.
Particípios em grego flexionam por caso, gênero e número, como adjetivos, concordando com o nome que qualifica, e herdam do verbo o tempo, aspecto e voz.
na frase
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς
κρατύνων está no particípio presente ativo. É, ao mesmo tempo, adjetivo e verbo.
Significa “governante”, fazendo, entao, a traducao completa do termo por “ó Édipo governante”.
Enquanto adjetivo, κρατύνων (governante) se refere a Οἰδίπους (Édipo).
Entao, κρατύνων concorda com Οἰδίπους em género, número e caso, que é o Nominativo singular masculino.
Sua tabela de decinacao completa fica, portanto:
Singular
| Caso | Masculino | Feminino | Neutro |
| Nominativo | κρατύνων | κρατύνουσα | κρατύνον |
| Genitivo | κρατύνοντος | κρατυνούσης | κρατύνοντος |
| Dativo | κρατύνοντι | κρατυνούσῃ | κρατύνοντι |
| Acusativo | κρατύνοντα | κρατύνουσαν | κρατύνον |
| Vocativo | κρατύνων | κρατύνουσα | κρατύνον |
Plural
| Caso | Masculino | Feminino | Neutro |
| Nominativo | κρατύνοντες | κρατύνουσαι | κρατύνοντα |
| Genitivo | κρατυνόντων | κρατυνουσῶν | κρατυνόντων |
| Dativo | κρατύνονσι(ν) | κρατυνούσαις | κρατύνονσι(ν) |
| Acusativo | κρατύνοντας | κρατυνούσας | κρατύνοντα |
| Vocativo | κρατύνοντες | κρατύνουσαι | κρατύνοντα |
No entanto, sendo κρατύνων um verbo, ele também precisa de um complemento.
χώρας ἐμῆς é o complemento objetivo do particípio. Significa, em portugues, “da minha terra”.
Quando um substantivo ou particípio deriva de um verbo transitivo, o seu complemento é chamado de Genitivo Objetivo.
Em grego, verbos de poder, governo ou domínio (como κρατέω ou o seu derivado κρατύνω) regem o caso genitivo para indicar sobre o que ou sobre quem o poder é exercido.
Diferentemente do português, onde se diz “governar a terra” (objeto direto/acusativo), a língua grega entende que quem governa exerce poder sobre uma esfera ou parte de algo. Por isso, o objeto desse poder é colocado no genitivo.
Portanto, o uso do genitivo neste caso específico nao indica posse, e sim o ambito da autoridade.
Ao usar o genitivo χώρας ἐμῆς, o Sacerdote reconhece Édipo como o detentor do poder absoluto sobre o território.
Ao mesmo tempo, ao usar o possessivo ἐμῆς (minha), ele lembra a Édipo que, embora o rei o governe, o país, ou o território de Tebas, é a pátria do Sacerdote.
É um equilíbrio diplomático típico da tragédia, como se o sacerdote disesse “Tu mandas na terra que é minha, ou nossa, por isso deves nos salvar”.
Χώρας é um substantivo de primeira declinacao e está no Genitivo singular de χώρα (terra, país).
Sua tabela de declinacao completa é:
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | χώρα | χῶραι |
| Genitivo | χώρας | χωρῶν |
| Dativo | χώρᾳ | χώραις |
| Acusativo | χώραν | χώρας |
| Vocativo | χώρα | χῶραι |
Ἐμῆς está no Genitivo singular feminino do pronome possessivo ἐμός (meu/minha), concordando com χώρας.
Suas tabelas de declinacoes completas sao:
Masculino (ἐμός)
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | ἐμός | ἐμοί |
| Genitivo | ἐμοῦ | ἐμῶν |
| Dativo | ἐμοί | ἐμοῖς |
| Acusativo | ἐμόν | ἐμούς |
| Vocativo | ἐμέ | ἐμοί |
Feminino (ἐμή)
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | ἐμή | ἐμαί |
| Genitivo | ἐμῆς | ἐμῶν |
| Dativo | ἐμῇ | ἐμαῖς |
| Acusativo | ἐμήν | ἐμάς |
| Vocativo | ἐμή | ἐμαί |
Neutro (ἐμόν)
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | ἐμόν | ἐμά |
| Genitivo | ἐμοῦ | ἐμῶν |
| Dativo | ἐμοί | ἐμοῖς |
| Acusativo | ἐμόν | ἐμά |
| Vocativo | ἐμόν | ἐμά |
Pronomes
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
Pronomes sao classes de palavras que vem em lugar do nome. Tem origem na oralidade, e servem para referir as pessoas do discurso, sejam elas o sujeito da oracao, sejam elas o objeto.
Podem ser pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos, interrogativos, indefinidos, relativos. Evidentemente é uma classe de palavras fundamental na construcao gramatical de qualque língua, e explicá-las detalhadamente seriaum trabalho enciclopédico por si só.
Na língua grega, suas declinacoes se apresentam na forma a seguir:
1ª pessoa (eu / nós)
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | ἐγώ | ἡμεῖς |
| Genitivo | ἐμοῦ / μου | ἡμῶν |
| Dativo | ἐμοί / μοι | ἡμῖν |
| Acusativo | ἐμέ / με | ἡμᾶς |
2ª pessoa (tu / vós)
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | σύ | ὑμεῖς |
| Genitivo | σοῦ / σου | ὑμῶν |
| Dativo | σοί / σοι | ὑμῖν |
| Acusativo | σέ / σε | ὑμᾶς |
3ª pessoa (ele/ela/isso / eles/elas/isso)
não há pronomes pessoais de 3a pessoa. Ela está fora do eixo do diálogo.
Normalmente se usa o pronome demonstrativo αὐτός, αὐτή, αὐτό como pronome pessoal de 3ª pessoa (“ele/ela”), especialmente no sentido de “ele mesmo / ele”.
αὐτός (masc.) / αὐτή (fem.) / αὐτό (neut.):
Singular
| Caso | Masculino | Feminino | Neutro |
| Nominativo | αὐτός | αὐτή | αὐτό |
| Genitivo | αὐτοῦ | αὐτῆς | αὐτοῦ |
| Dativo | αὐτῷ | αὐτῇ | αὐτῷ |
| Acusativo | αὐτόν | αὐτήν | αὐτό |
Plural
| Caso | Masculino | Feminino | Neutro |
| Nominativo | αὐτοί | αὐταί | αὐτά |
| Genitivo | αὐτῶν | αὐτῶν | αὐτῶν |
| Dativo | αὐτοῖς | αὐταῖς | αὐτοῖς |
| Acusativo | αὐτούς | αὐτάς | αὐτά |
Na frase de exemplo, sao pronomes as palavras ἐμῆς e ἡμᾶς.
Ἐμῆς significa “da minha”, e está no genitivo singular masculino. Concorda com o substantivo Χώρας (terra), por isso assume o mesmo caso do substantivo.
Χώρας é um substantivo feminino de primeira declinacao, significando terra, ou país.
Na frase, está no genitivo singular.
Sua tabela de declinacao completa é a seguinte:
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | χώρα | χῶραι |
| Genitivo | χώρας | χωρῶν |
| Dativo | χώρᾳ | χώραις |
| Acusativo | χώραν | χώρας |
| Vocativo | χώρα | χῶραι |
ἡμᾶς significa “a nós”, e está no acusativo plural. É o complemento direto do verbo ὁρᾷς, fazendo, com ele, a expressao “ve-nos”
A palavra Οἰδίπους
ἀλλ᾽ ὦ κρατύνων Οἰδίπους χώρας ἐμῆς, ὁρᾷς μὲν ἡμᾶς
A palavra Οἰδίπους merece uma análise mais cuidadosa.
É um substantivo masculino de terceira declinacao. A identificacao do radical em substantivos de terceira declinacao é feita a partir do caso genitivo singular, que é Οἰδίπους.
Já foi referido, em secoes anteriores, que a palavra, nesta frase, está no caso vocativo.
A sua tabela completa de declinacao é a seguinte:
| Caso | Singular | Plural |
| Nominativo | Οἰδίπους | Οἰδίποδες |
| Genitivo | Οἰδίποδος | Οἰδιπόδων |
| Dativo | Οἰδίποδι | Οἰδίποσι(ν) |
| Acusativo | Οἰδίποδα | Οἰδίποδας |
| Vocativo | Οἰδίπους | Οἰδίποδες |
Obviamente, é o título da obra, e nomeia seu personagem principal, o filho do rei de Corinto que, devido a escolhas infelizes, sai da casa dos pais, estabelece-se em Tebas, modifica o curso histórico desta cidade e, mesmo tentando evitar seu destino amargo, acaba por cumpri-lo, trazendo desgracas e infelicidades a todos em sua volta.
Ao longo da tragédia, ficamos a saber que Édipo é, na verdade, filho de Laio e Jocasta, reis da cidade de Tebas. Seus pais o deixaram para morrer, ainda com tres dias de vida, para que nao se cumprisse a profecia de Apolo, que dizia que a crianca, no futuro, mataria o pai e desposaria a mae. Antes de dar a crianca para que seja morta, Laio amarrou seus tornozelos, o que deixou Édipo com sequelas mesmo depois de adulto. Esse fato é revelado no diálogo entre Édipo e o mensageiro, que, na verdade, foi o criado destinado a matá-o enquanto crianca.
O mensageiro revela que o nome de Édipo relembra esse infortúnio, já que o original da obra pressupoe que Οἰδίπους seja composto de Οιδαο (incho) e ποθς (pés). O nome do herói, portanto, significaria “pés inchados”.
Entretanto, em uma trágica reviravolta de eventos, o criado se compadece da crianca, e ela acaba por ser adotado pelos regentes de Corinto.
O resto do livro se dedica, entao, a narrar de que forma o destino se desenrolou para que Édipo afinal cumprissse a profecia, apesar de seus esforcos para evitá-la.
As reflexoes que se tiram da leitura da obra sao várias. A mais imediata é que nao importa os esforcos para evitar o seu destino, uma pessoa está predestinada a cumprir o papel na vida que lhe foi reservada pelos deuses. A reminiscencia das cicatrizes nos tornozelos de Édipo evidenciam a irreversibilidade do seu destino. Essa ideia encaixa com a percepcao que tinham os gregos de predestinacao, de falta de mobilidade social, e de governanca total dos deuses na vida dos mortais. Hoje há várias correntes filosóficas, pedagógicas, psicológicas e mesmo religiosas que contestam esse pensamento. E seria matéria para outras discussoes, em que, pessoalmente, sou incapaz de fornecer opiniao profissional.
Outra reflexao bem evidente ao longo do texto é a cegueira de Édipo. Apesar de exergar fisicamente, ele nao percebe, nao entende os eventos se desdobrarem diante de si, mesmo quando Tirésias o fala claramente. Esse fato é marcado na constante repeticao de palavras, sejam verbos ou substantivos, relacionados `a visao. Essa falta de percepcao acaba por fazer de Édipo uma pessoa arrogante, pois nunca conseguia assumir e reconhecer seus erros, jogando culpas a todos a sua volta – até mesmo `a montanha que o manteve vivo! – e acusando seu cunhado e ao sacerdote de traicao.
Isso, ao meu ver, engrandece a obra de Sófocles: os heróis nao sao completamente bondosos, os antagonistas nao sao completamente maus. Todos sao humanos, portadores de inerentes contradicoes morais.
Bibliografia
Muracho, Henrique. Língua grega. Visao semantica, lógica, organica e funcional. Volume 1, 3 edicao. Editora Vozes.
Muracho, Henrique Graciano. Junior, Juvino Alves Maia. Grego – Teoria e prática nos cursos universitários. 4 edicao. Editora Ideia/Editora Universitária. Joao Pessoa, 2020.
Fourgeaud-Laville, Caroline. Grec ancien express. editora Les belles lettres.
Kury, Mário da Gama. A Trilogia Tebana – Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona. Editora Zahar.

Leave a Reply